DESABAFAR é PARA MIM TERRA incógnita. A porta do meu peito está fechada, as chaves perdidas. Talvez nunca teve chave nenhuma, sei lá.
Mas, posso até fazer esse esforcinho, se você quiser : falar.
A verdade é que eu podia até impedir o mundo de girar. Fazer o tempo parar, um dia de chuva virar uma noite estrelada, e todas as loucuras que você desejará.
Não tenho nada bem particular de dizer, ou será que tenho demasiado palavras para jogar fora. Nem sei por onde começar. Fico meio sem jeito quando o assunto é você. Só se imagine que estamos tranqüilos num lugar agradável (sentados na área, numa praia quase deserta, pôr-do-sol e geladas, tá?) e que eu estou contando para você qualquer coisa que passa pela minha cabeça.
Será que isto pode ficar cá entre nós. O tempo passou e para a primeira vez queria falar os meus sentimentos por você.
Gosto dessa máscara maravilhosa que você vesti desde a madrugada. Se arma em adulta ao acordar. Um trabalhador de verdade, forte e sem dúvida, que pode se orgulhar de ter vivido do jeito que escolheu, sem precisar de ninguém. Jamais.
Gosto do homem sem fraqueza que você pretende ser, dessa imagem que você construiu. Mas pouco são aqueles que conhecem o olhar sonhador que se esconde atrás. Ninguém viu a criança que tenta ficar calado e que continua entanto vivendo em você.
Não fique com medo meu bem, que eu vou confessar para você que me apaixonei por esse garoto que me abraça com desesperança, bastante forte para eu sentir as minhas costas doer. Sim, ainda estou apaixonada quando você colocar o rosto contra o meu peito me pedindo carinhos, mesmo se não fossem tão gostosos como aqueles da sua mãe. Ainda estou apaixonada quando você chorar se lembrando do Brasil. Ainda estou apaixonada quando você partilhar suas dúvidas comigo, admitindo com uma certa vergonha que nunca foi capaz de fazer escolhas.
Fique tranqüilo, que eu não me afastarei.
Não me pergunte mais o que fez que eu estou gostando de você ; é sem razão nenhuma ; simplesmente é.
Ainda me lembro de a primeira vez que eu te vi. Aquele primeiro encontro arrumado. Mês de Janeiro. Dia quinze. A noite estava fresquinha, o céu vazio de nuvens. Eu podia até ver umas estrelas - o que é coisa rara aqui em Paris, sabe.
Eu estava bem mal-disposta. E não quis prestar atenção a você... até cruzar com seu olhar. Fiquei vidrada no instante. Você conversando com esse amigo seu que mora contigo, e eu me perguntando : "Nossa, qual é cor dos seus olhos?!" Verdes, azuis, cinzentos. O tempo passou, e vou confessar para você que ainda não estou segura desse detalhe. Eles mudam tão rápido como o vento. Agora sei que mudam também junto com o seu humor : clarinhos quando você está de boa, seus olhos viram baços quando está preocupado. E eu acho isso engraçado demais. Você pode falar tantas mentiras que quiser, ou, ao contrario, ficar calado ; me basta te olhar nos olhos para você ficar transparente. Sempre sei qual é o seu sentimento.
Estou ligada.
Olha, é uma coisa que eu gosto em você. Guardou aquele jeito de criança : comunica sem falar palavra nenhuma, você traze tudo por uma olhadela. A gente só tem que ser capaz de decifrar.
Decifrei, é me deixei levar.
é pelo seu olhar que primeiro me apaixonei. O tempo operou o resto.
E acordei quando te encontrei.
Eu gosto de dizer que eu sou a verdadeira Pilar do romance do P. Coelho. Despertei no momento em quê meu olhar cruzou com o seu. O tempo passava e eu estava renascendo pouco a pouco. Você errou varias vezes, e eu fiquei. Aprendi a valor duma afecção sem limite. Aprendi a felicidade através do dom de si mesmo. Aprendi que eu sou bastante forte para aguentar todas as voltas loucas da existência. E você me ensinou como me amar enquanto eu estava mesmo aprendendo a te apreciar. É tão bom quando a fé voltar.
Tenho que admitir que tudo dificultou rápidão, que a minha razão ainda está gritando que eu estou errada, e que sinto que nós estamos nós machucando. Mas há essa voz também, aquela que ressoá profundamente em mim, me falando para não desistir, que a paciência é amarga mas que a doçura do seu fruto sempre vale a pena.
O destino diz o que seguirá. Meu amigo, meu querido, eu não desisto.
Queria que chegasse logo o dia em quê poderei dizer que eu te amo.
E chegará.




4 comentários:
Gostei daqui. Com certeza vou voltar mais vezes. O que mais me chamou atenção foi o seu jeito de escrever, um jeito tão gostoso de ler e ao mesmo tempo tão maduro. Parabéns. Até a última palavra, seu texto prende o leitor. Estou te recomendando no meu blog, bejs.
Percorro os olhos pelas palavras e me delicio com a simplicidade tanto que chego a dizer que meus olhos querem mais de suas verdades *-*
Tem chance do blog ser atualizdo?
Gostei
O amor tende a acostumar mal as pessoas, sem ele tudo é dor; com ele tudo é tormento. Com ele se quer mais e mais, sem deseja-se esse mais e mais. Quando acaba sofre-se, resigna-se, espera-se a volta ou outro; mas quando começa tudo é cor.
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